Por Pedro Viana

Resenhar “1984” é uma responsabilidade grande demais para qualquer um. Confesso que muitas vezes pensei em desistir, justamente por não me considerar capaz de escrever uma resenha à altura da obra. No entanto, reuni coragem e (acho que) consegui.

O livro “1984” pode ser considerado uma reflexão ficcional sobre a essência do poder. É uma distopia escrita em 1949, prevendo um futuro fictício para o ano que intitula o livro. Um futuro onde não existem mais liberdade e privacidade, e o simples ato de pensar é considerado um terrível crime. Os habitantes de Ocenânica*, sujeitos à dominação absoluta do Partido, são observados e influenciados – para não dizer manipulados – todos os dias. O passado passa a ser alterado continuamente, moldando a história conforme é necessário e útil para o Partido. A verdade se confunde com a mentira, pois qualquer um que discorde do que é dito pode sumir dos registros, como se nunca houvesse existido. No meio de toda essa opressão, conhecemos Winston Smith, um modesto sujeito que guarda em seu interior toda a raiva que sente pelo Partido e pelo Grande Irmão, figura máxima de poder e soberania.

George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair, idealizou um futuro sem privacidade, onde as pessoas eram monitoradas integralmente por uma teletela na própria casa – e onde quer que fossem. O mesmo aparelho informava as notícias e os acontecimentos, ditava horários, impunha gostos musicais e colocava constantemente na cabeça das pessoas os ideais do Partido. Então eu pergunto: existe alguma semelhança? “1984” consegue ser o reflexo de nossa sociedade em determinados aspectos. Fazemos da televisão, do rádio e da internet nossas vidas, mas nunca nos perguntamos se o que assistimos, ouvimos e lemos está, de alguma maneira, nos influenciando. Atualmente, pode não funcionar com a maioria, mas você já parou para pensar quantas multidões agem e pensam da mesma maneira, idolatrando figuras fúteis da mídia, acreditando em mentiras alheias e abraçando um modo de vida padrão, determinado por aquilo que está na moda? É melhor pararmos por aqui, porque cometer um crime-pensamento pode ser punível com morte. O Grande Irmão pode estar de olho em nós.

livro 1984A frieza do narrador, umas das características marcantes do livro, faz jus ao mundo cinzento e cruel de Orwell. Não posso esconder minha antipatia com Winston Smith, personagem principal do livro. Achei-o muito ingênuo ao acreditar numa revolução daquela forma, e mais ingênuo ainda ao pensar ter despistado o Partido de uma maneira tão fácil. Desde o início imaginei as consequências que suas atitudes impulsivas levariam. Mas num mundo tão opressor quanto o de “1984”, elas poderiam ser o grande fator que define uma humanidade oprimida pelo poder. Ainda penso sobre isso. O final do livro, que tanto abordou tais assuntos, fechou a história brilhantemente. Não poderia ter sido melhor.

Pode parecer estranho, mas acredito que olhando por um determinado ponto de vista, “1984” poderia se intitular “O Guia Prático de Como Dominar a Humanidade”. Os conceitos e práticas empregadas pelo Partido são de uma complexidade e funcionalidade tão assustadora que, se por acaso existissem efetivamente, dificilmente dariam errado. Isso me leva a indagação da possibilidade de ocorrer no futuro de nosso mundo. Espero que eu não esteja aqui para ver.

Recebi recomendações para ler “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, após a leitura de “1984”. Faz parte do mesmo gênero, distopia, escrito mais ou menos na mesma época, só que com outra visão do futuro – algo mais voltado para a ciência e a tecnologia. Lerei em breve e, se eu conseguir, postarei uma resenha da obra, comparando-a com “1984”. Enquanto isso, vou revivendo as cenas do livro de George Orwell em minha mente, refletindo sobre o mundo ao qual faço parte e a nossa atual sociedade. Acredito que é uma leitura obrigatória para qualquer pessoa. “1984” é uma obra imortal e foi, sem dúvida, um dos melhores livros que li até hoje.

“Tirou do bolso uma moeda de vinte e cinco centavos. Ali também, em letras minúsculas e precisas, estavam inscritos os mesmos slogans, e do outro lado da moeda via-se a cabeça do Grande Irmão. Até na moeda os olhos perseguiam a pessoa. Nas moedas, nos selos, nas capas dos livros, em bandeiras, em cartazes e nas embalagens dos maços de cigarro – em toda parte. Sempre aqueles olhos observando a pessoa e a voz a envolvê-la. Dormindo ou acordada, trabalhando ou comendo, dentro ou fora de casa, no banho ou na cama – não havia saída. Com exceção dos poucos centímetros que cada um possuía dentro do crânio, ninguém tinha nada de seu.” (pág 38/39)

Oceânica*: alguns leitores devem ter estranhado esse termo, já que o correto seria “Oceania”. No entanto, essa foi uma das adaptações da mais recente edição, da Companhia de Letras.  Outros termos também foram modificados, como “proles”, que se transformou em “proletas”.

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