Por Simone O. Marques

simoneomarques.com

Como não poderia ser diferente para alguém que resolveu ser escritora, sou uma apaixonada por livros. Amo escrevê-los e amo lê-los. Muitos que frequentam a Fantástica devem saber como me sinto quando entro numa livraria. Todas as vezes fico ansiosa e com as mãos coçando… pena que a grana é sempre curta para se dar ao prazer de escolher todos os que me provocaram uma reação curiosa (daquelas que não sossega enquanto você não consegue ter o livro que te provocou aquilo).

Foi assim quando em 2009 descobri O Nome do Vento. Não conhecia o autor, nunca havia lido nenhuma crítica sobre o livro, nem buscado saber. Simplesmente era um total desconhecido para mim.  Fui atraída pelo nome, depois o peguei na prateleira e a conquista veio mesmo quando li a sinopse.

O livro promete não ser maniqueísta e eu, particularmente, adoro personagens dúbios.  E Kvothe ou Kote é um personagem fascinante, não só por suas características físicas, mas por sua inteligência, sagacidade, perspicácia.

A narrativa de Patrick Rothfuss é muito envolvente e a técnica de apresentá-la em terceira pessoa no tempo presente e em primeira pessoa no passado é magnificamente bem costurada. Eu ficava esperando quando Kvothe começaria a contar sua história ao “cronista” e quando a narrativa voltaria para o presente, para a velha hospedaria e a aldeia sinistra onde ela está inserida.

É interessante também como ele dividiu a saga toda em três dias no presente e em uma história de muitos anos no passado, sem as chatices de flashback. É mais como sentar com um parente contador de histórias num domingo.

O livro constrói uma versão deliciosa da jornada do herói, com elementos mágicos, lendas, fantasia e um toque de realidade que acaba por surpreender.

Na orelha do livro há uma pequena degustação desse caminho e que acho muito atraente: “Já resgatei princesas de reis adormecidos em sepulcros, Incendiei a cidade de Trebon. Passei a noite com Feluriana e saí com minha sanidade e minha vida. Fui expulso da Universidade com menos idade do que a maioria das pessoas consegue ingressar nela. Caminhei à luz da lua por trilhas de que outros temem falar durante o dia. Conversei com deuses, amei mulheres e escrevi canções que fazem os menestréis chorar. Vocês devem ter ouvido falar de mim.”

O melhor é que a aventura de Kvothe vai ainda além dessas proezas, mesmo não se afastando do maniqueísmo como eu imaginava que fosse, afinal há o mal (ou por enquanto acreditamos que sim) na figura do Chandriano, ou naquilo que ele representa, que também dá à história o elemento mítico.

A relação que Kvothe tem com a música também é fascinante. A arte e magia aparecem como complementares e indissociáveis da própria construção do ser do personagem. São momentos muito emocionantes da narrativa, sem dúvida.

Uma coisa que preciso dizer e sei que muita gente não vai gostar é que, quando eu vi que Kvothe foi para uma escola onde aprenderia magia, pensei: Ahhh lá vem mais uma imitação de Harry Potter! Mas, felizmente, essa apreensão foi sem fundamento. A Universidade que Kvothe frequenta é um universo onde a magia é mais densa, profunda, inteligente e madura, onde está relacionada a conhecimentos, físicos, químicos e alquímicos e não a simples pronúncia de encantamentos.

Antes que me crucifiquem, eu gosto muito de Harry Potter, mas ele é um livro infantil, com personagens rasos e uma história simples. O que não se aplica ao O Nome do Vento. Kvothe arrasaria com Harry num segundo e até mesmo com lorde Voldemort, sem precisar usar de Avada Kedavra.(agora podem proferir as maldições, rsrsrs).

Enfim… O Nome do Vento me conquistou pela construção dos personagens, pela narrativa e pelo enredo. Há alguns problemas, sim, como o fato do autor não conseguir fugir do maniqueísmo como eu esperava, e o mais grave de todos, a demora para que o segundo livro ( O Temor do Sábio) chegasse ao Brasil (foram dois anos!). E vai saber quando o terceiro e último livro será lançado…

Mesmo assim, experimentem. =)

O NOME DO VENTO NA SARAIVA

 

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